Mal de Brasileiros

De vez em quando ouvia esse tipo de comentário incômodo de algumas pessoas, principalmente estrangeiros, nos meios industriais e era obrigado a engolir isso que soava quase como um insulto ante as evidências que geravam tais comentários.

Passei a observar melhor e realmente é uma verdade desconcertante.

Sempre que chega algum equipamento, antes de qualquer precaução e de ler as mínimas recomendações, o pessoal simplesmente retira da embalagem e logo liga a uma tomada. Se der algum tipo de erro, aí sim procuram o manual que acompanha o produto e tentam descobrir algo, isso se já não aconteceu o pior. Se funcionou ninguém nem olha o manual e com o tempo ele acaba se perdendo. Aí então é o caos, quando é necessário consultá-lo.

Tudo por preguiça e falta de paciência para “encher o vidrinho”, lembrando o termo do nosso leitor.
Recentemente pude perceber de perto essa deficiência. Após fazer a manutenção numa boa quantidade de circuitos de força e controle de inversores de freqüência, relacionar os defeitos apresentados e suas causas mais prováveis, algumas culminando com a necessidade de substituição total dos componentes, tal a magnitude dos efeitos, fiz uma estatística com esses dados.

As causas mais freqüentes e de grande significância foram: Problemas ambientais mal contidos, qualidade de energia, Falha humana.

Os problemas ambientais, mais especificamente a poluição com poeira, maresia e umidade, decorrem de má especificação de projeto por inobservância das recomendações do manual do equipamento.

Nos casos analisados o grau de proteção era classe IP20, ou seja recomendado para uso em locais abrigados e livres de poluentes. Quando o ambiente é agressivo, algumas medidas de contenção são adotadas.

Quando a maresia e umidade são disseminadas pela superfície da placa de potência, começa a ocorres a corrosão e a condução de corrente pela superfície do circuito impresso culminando com sérias avarias como derretimento e interrupção de trilhas, que ao se romperem com carga propiciam o aparecimento de arco elétrico que ioniza o meio circundante, provocando curto circuito generalizado.

O problema de má qualidade de energia nem sempre é fácil de contornar, principalmente quando a instalação é em campo, em local ainda com instalações provisórias e improvisadas. A maneira de conter esses efeitos é utilizar instalações corretas, mínimas recomendadas pelo fabricante, incluindo proteções eficazes. Tudo isso consta no manual do equipamento, que geralmente ninguém leu.

Aliás esse manual contem uma quantidade muito grande de informações imprescindíveis para uma boa instalação, operação, programação, identificação de falhas, contenção de ruídos, aterramento, bitola de cabos e muito mais.

O problema da falha humana é até meio cultural e fruto do aperto operacional de alguém que está isolado num local completamente sem recursos e desesperado para colocar em funcionamento a qualquer custo.

Assim fazem duas coisas péssimas: Burlam as proteções e insistem em tentar ligar o equipamento que já parou por defeito e em muitos casos já está até fedendo a queimado. Começam substituindo o fusível ultra rápido por outro retardado e depois aumentando o valor em amperes do fusível.e insistindo várias vezes. (Quando esse existe, pois em alguns casos a proteção é um disjuntor caixa moldada, por exemplo, só para curto franco).

O manual do equipamento recomenda fusíveis ultra rápidos para proteger os semicondutores da ponte retificadora de entrada, mas o pessoal acha que esse queima muito e por isso utilizam os retardados ou disjuntores termomagnéticos.

robertovasco@hotmail.com

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