Equipamento inadequado, quase gera acidente fatal

Já comentamos aqui sobre acidente por causa de ferramenta inadequada. Mas isso é pertinente também a equipamentos inadequados. Muitas vezes a coisa é tão sutil que nem nos damos conta disso ou não nos apercebemos da necessidade de usar um tipo adequado de ferramenta, durante um planejamento de um serviço. Nesses casos estão inclusos, luminárias de mão, tipo gambiarras, extensões, refletores e vários outros. Nesses casos, deve ser utilizada a alimentação em baixa tensão, no máximo 24 volts. A inobservância disso tem causado inúmeros acidentes.

A história a seguir ilustra uma delas.

Certa vez, numa indústria de grande porte, aconteceu um problema de “vazamento” num cabo de média
tensão(4160 V), que resultou numa avaria séria em sua estrutura que então requeria reparos urgentes. Esse tipo de serviço geralmente é demorado, de seis a oito horas dependendo das condições encontradas, extensão do dano, condições de serviço no local de trabalho, etc.

No presente caso a avaria ocorreu no trecho do cabo localizado exatamente dentro de um poço de cabos no local de uma emenda antiga, provavelmente devido ao envelhecimento da mesma, associado com a umidade.

O poço estava cheio de água, que até então não se sabia exatamente de onde vinha. Esse poço era relativamente grande, cerca de 4x3x2,5m(CxLxA), suportando várias pessoas trabalhando no seu interior.

A providência inicial era drenar, para o que foram colocadas duas bombas de poço. Por fim, a água já estava saindo limpinha, mas com força, provindo de dentro de um envelope de cabos(tubulação subterrânea concretada), embora ainda não se soubesse explicar o porquê.

Em dado momento dois eletricistas descerem no poço para fazer a inspeção no cabo e avaliar os danos para então estimar o volume de horas a serem gastas e dar a previsão ao pessoal da produção.

Estavam com água ainda pela altura das canelas. Como o ambiente era extremamente escuro, usavam uma luminária tipo gambiarra dessas comuns usadas em oficinas, porem, alimentada com 220VCA, a tensão de serviço local. Naquela época não havia outro tipo.

Não demorou muito, começou aquela gritaria desesperada lá embaixo gritando repetidas vezes: Desliga pelo amor de deus! Que coisa horrível!

Raciocinei rapidamente: as bombas de poço não devem ser, pois trabalham dentro d’água e por si só devem estar aterradas. Deve ser a luminária.

Por muita sorte a luminária era alimentada com um cabinho bem fino, mas forte. No desespero, consegui arrebentar. Escureceu tudo lá embaixo e a gritaria acabou. Aí eu pensei ou salvei a vida deles ou já morreram. Poucos minutos depois, começou a sair la de dentro um trazendo o outro abraçado, quase desacordado. Aliás quem gritava era o outro porque quem estava segurando a luminária não conseguia.

Quando chegaram lá em cima, vimos o furo enorme e carbonizado na mão do acidentado.

Como providência imediata foi encaminhado ao posto médico para iniciar os procedimentos de atendimento de urgência e a seguir, se necessário encaminhar ao hospital, o que por sorte não foi necessário.

A seguir, o equipamento causador, a luminária, foi recolhida para análise e verificou-se que esta estava defeituosa pois possuía uma chave liga-desliga em sua lateral(tipo tramela) cujo isolamento de baquelite estava quebrado deixando o pino metálico, energizado, exposto ao toque.

A primeira coisa que se percebe é uma condição insegura (equipamento avariado), podendo também ter
ocorrido ato inseguro(ainda que involuntário), porque não inspecionaram antes ou não perceberam a avaria,
que pode ter acontecido no momento que a chave foi acionada, quando caiu e não viram, ou simplesmente não deram importância àquele pequeno detalhe. Isso também foi acompanhado de provável falta de planejamento da tarefa. Análise preliminar de risco ainda não se fazia na época, pelo menos formalmente como hoje.

Outra coisa que antigamente não tinha e nem era normatizado internamente era o uso de luminárias alimentadas com baixa tensão, que provavelmente só foi adotada tempos depois, como resultado de medidas de controle contra novas ocorrências, após análises de acidente.

Algum tempo depois, muita coisa foi estabelecida em regulamento interno e muitas coisas que eram normatizadas foram seguidas a risca.

Então, serviços como reparos no interior de moinhos, ventiladores, fornos, poços, etc, principalmente serviços elétricos passaram a ser feito com esses equipamentos.

Só para ilustrar, os refletores com lâmpadas 220 volts foram substituídos por faróis de milha tipo automobilístico alimentados em baixa tensão, vindo de um transformador portátil, mesmo assim eram aterrados. As luminárias foram substituídas por outras com carcaça de plástico sem chaves expostas.

Lâmpadas fluorescentes com capa plástica, resistente a quebras por pancadas, tipo usadas em oficinas automotivas também foram incluídas como equipamentos. Procedimentos específicos para serviços em cada um desses ambientes foram elaborados e as tarefas passaram a ser rigorosamente planejadas incluindo-se as análises de risco e as medidas de controle.

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