Bomba rodou desenergizada

Quando se trabalha com assuntos de segurança, é preciso ter muito cuidado ao fazer uma reclamação e estar cabalmente convicto de que alguém errou antes de acusar. È preciso ter provas irrefutáveis, porque muitas vezes o que parece aos olhos de alguém pode não representar a realidade. Então, se por acaso o acusado não tiver uma prova segura capaz de inocentá-lo, pode ter sua vida complicada, principalmente em caso de ocorrência de acidente com lesões graves. No fim depois de muita pesquisa, no desenvolvimento do inquérito, pode ser que apareça a prova da inocência, mas até provar os danos morais já serão grandes demais.

A história a seguir mostra um caso desses, onde por sorte não houve nenhum acidente com vítima, ninguém saiu machucado, mas deu uma confusão sem tamanho. Vamos a história:

Numa empresa de grande porte, em determinado dia, um serviço de manutenção geral na área das bombas de vácuo estava previsto. Equipes de várias manutenções tinham serviços programados para fazer.

A mecânica deveria desmontar um dos estágios da bomba e a elétrica deveria fazer manutenção no mecanismo do disjuntor, além de outros serviços.

Foi feito todo o procedimento de segurança necessário, colocados os cartões de segurança garantindo o desligamento para cada equipe, foi desenergizado, enfim cumprido todo aquele ritual de segurança.

O serviço começou e cada equipe se posicionou em sua área com materiais, ferramentas e equipamentos necessários.

Logo na primeira hora de serviço, apareceu o supervisor da área de manutenção mecânica na sala da elétrica onde faziam a liberação de equipamentos, muito aborrecido e visivelmente transtornado, reclamando que o equipamento, a bomba de vácuo, havia rodado e por pouco não machucou seriamente os mecânicos que lá trabalhavam. Chamaram o representante da segurança e o eletricista que fez o desligamento. Esse afirmou categoricamente que havia desenergizado corretamente o equipamento e que a acusação não tinha razão de ser porque inclusive o disjuntor havia sido retirado para reparos e seu cubículo estava vazio, há um tempo maior do que aquele que afirmaram ter o equipamento rodado.

Para desfazer aquela confusão, foram em comissão até a subestação e constataram que realmente o cubículo estava vazio e o disjuntor estava no meio da sala, quase todo desmontado e em pleno serviço de manutenção. Portanto na hora que o reclamante afirmou que rodou, não havia como ter rodado, a menos que conseguissem um disjuntor reserva, o que também não era possível, porque vários outros disjuntores estavam também fora dos cubículos e os poucos que sobravam estavam em operação e não poderiam ser retirados dos respectivos cubículos.

Mas eu vi rodar, afirmou o reclamante. Então rodou por outro motivo, energizado não foi, retrucou o eletricista.

A próxima tarefa agora seria pesquisar como o eixo do equipamento poderia ter rodado sem estar energizado.

Estudando a situação no local descobriram que rodou devido a contrapressão da rede, quando se mexeu ou manobrou alguma válvula.

Essa situação era realmente factível, pois havia dois modos de operação: cada bomba na sua própria linha ou trabalhando para a linha geral. Se houvesse vácuo na linha geral e uma determinada válvula fosse operada haveria a sucção de ar, fazendo o rotor da bomba e do motor rodar.

Foi difícil convencer o reclamante, que ainda não ficou muito satisfeito e desconfiado que alguém estava escondendo algo.

Pois é, numa situação dessa, se o disjuntor não estivesse desmontado no meio da subestação, o cubículo vazio e a comissão não tivesse constatado pessoalmente, seria muito difícil o eletricista provar que tudo de sua parte estava correto ou que alguém tivesse energizado rapidamente e depois desenergizado. Se machucasse seriamente alguém então a coisa se complicaria ainda mais.

No presente caso, nota-se que não foi feita uma criteriosa análise de risco e indicado as medidas de controle, considerando todas essas possibilidades, até porque naquela época isso não era feito formalmente.

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