Acidente quase fatal

Os acidentes sempre acontecem envolvendo condições inseguras, atos inseguros e fatores pessoais. Muitas vezes essas condições passam despercebidas e só depois de algum acidente é que vemos a importância de cada aspecto.

Antigamente não se faziam, pelo menos formalmente as análises de risco e o planejamento de tarefas, principalmente nos serviços de atendimento de emergência à linha de produção. Depois vem a questão cultural: “se todo mundo faz e nunca aconteceu nada de anormal, não deve haver nada errado”.Essa questão nem sempre é falada mas é subentendida. Depois vem outra questão, também cultural: “Se um faz todos podem fazer”, isto é , quando todo mundo executa uma tarefa ainda que errada e perigosa, alguém que se recuse por falta de condições de segurança, fica mau visto, “criador de caso” e pode ser que a primeira vista aceitem suas recusas, mas na primeira oportunidade ele é excluído do meio e colocado alguém que aceite compactuar com o erro geral.

Felizmente nos dias de hoje a questão segurança foi sistematizada e firmemente instituída nas empresas, inclusive por imposição da própria legislação, rigorosa fiscalização e aplicação de sansões.

A história a seguir mostra alguns desses aspectos.

Em uma instalação industrial de uma grande empresa, havia vários grupos de equipamentos que compunham sua linha de produção e por isso era atendido pelas turmas de manutenção de urgência que trabalhava em turnos de revezamento. Muitos equipamentos, por causa do uso, funcionamento intermitente e estarem sujeitos a intempéries como vibração, poeira e umidade, sofrem desgaste e freqüentemente precisam de ajustes e até substituições.

Um desses equipamentos era um compressor, não muito grande, acionado via correias “V” por um motor de potência apropriada. Entre outros controles, havia um pressostato que vinha apresentando problemas e enquanto não se substituía, precisava ser ajustado.

Muitos foram os atendimentos ali, sem que até então aparecesse algum problema, até que finalmente aconteceu.

Houve um chamado para comparecer ao local e um eletricista foi pra lá. Ficava sobre uma viga ao lado do equipamento, a cerca de 2m do piso térreo, próximo à estrutura do compressor e ali tentava regular o tal pressostato da melhor forma possível. Em dado momento se desequilibrou e começou a procurar em vão algo a sua volta onde pudesse se segurar. Naquela ânsia cometeu um ato de irracionalidade e segurou nas correias em movimento, que o puxaram seguraram e imprimiram um movimento no ar, acabando por arremessá-lo a pouca distância, caindo seu corpo no piso inferior após passar pela abertura entre o piso superior e a viga onde ele estivera. Ele caiu sobre um monte de material do processo produtivo local, o que amorteceu sua queda. Porem, além das mãos, muito machucadas, sofreu um corte enorme no couro cabeludo que lhe rendeu uma sutura de 32 pontos.

O produto químico do material talhou o sangue do ferimento e de certa forma estancou a hemorragia. Por sorte naquele momento a troca de turno já havia acontecido e o operador do novo horário passou por onde ele estava, fazendo a costumeira inspeção na área. O acidentado estava oculto dentro de um buraco no meio do monte de material. Quando finalmente conseguiu perceber que se tratava de alguém caído ali, imediatamente comunicou a sala de controle para providenciar uma ambulância. Nesse ínterim, o pessoal da elétrica já estava estranhando a demora do eletricista que não comparecera para a troca de turno. Então entraram em contato com a área onde o funcionário tinha ido e perguntaram como estava a situação, que caso ainda não tivesse sido resolvida, outro eletricista do turno atual iria lá assumir o serviço e liberar o do turno anterior. Assim conseguiram identificar quem era o acidentado e comunicaram a elétrica o fato ocorrido. O atendimento conseguiu ser realizado em tempo suficiente para salvar a vida, mas houve o afastamento até a completa cicatrização.

Pelo histórico de vida do acidentado, sabe-se que ele futuramente teve prolongados afastamentos para atendimentos psiquiátricos, o que acabou se tornando definitivo, ao que se supõe que de alguma forma tenham sido seqüelas do acidente ou que pelo menos esse tenha potencializado tal problema, entre outras causas.

A análise do acidente mostrou que havia uma dupla condição insegura, pois o piso superior era descontínuo exatamente naquela região onde o equipamento era instalado e as correias em “V” não possuíam a proteção em torno delas como seria de se esperar. Talvez tenha existido um dia, mas depois de retirada a primeira vez para manutenção, não retornou ao devido lugar.

Alem disso houve um ato inseguro porque foi feito o atendimento sem condições de segurança.

A isso se deve acrescentar que esse trabalho vinha sendo feito nessas condições por muitas pessoas em muitas ocasiões e até então ninguém havia se dado conta do risco existente. Soma-se a isto a situação de “pretensa boa vontade” culturalmente arraigada na mente do pessoal que trabalha em atendimento de emergência, no sentido de que se todo mundo faz, alguém no grupo não pode ou não deve negar sob pena de ficar mau visto ou ser considerado criador de caso e culminar com a sua exclusão.

É importante observar que mesmo hoje, com todo o aparato de segurança vigente em manutenção industrial, os trabalhos em atendimento de emergência continuam a apresentar enormes riscos, por quase sempre contemplarem condições inseguras e sempre exigirem pronto atendimento para garantirem a continuidade da produção e muitas vezes na “pressa”, as análises de risco não são feitas formalmente. Isso sempre leva a cometer atos inseguros e pior continua arraigado na mente dos trabalhadores nesse tipo de serviço.

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