Acidente, lesão, cicatriz

As condições inseguras sempre existem em maior ou menor grau e sempre requerem um bom planejamento de tarefa, análises de risco e medidas de controle. Muitos atos inseguros geralmente são fruto de descuidos e imprudências que podem estar relacionados a fatores pessoais. Nada os justifica. Por outro lado os acidentes são implacáveis, pois mesmo que se justifique, já aconteceu.

A história a seguir mostra um pouco disso:

Numa grande empresa vários equipamentos elétricos compunham a sua linha de produção e trabalhavam ininterruptamente. Ocasionalmente se programavam paradas para manutenção. As paradas gerais e mais demoradas, de vários dias, eram mais espaçadas, períodos de um ano, por exemplo.

Havia outras de um dia e eventualmente quando algum reparo de emergência se fazia necessário, cerca de uma hora.

Numa dessas de uma hora, entre outros serviços, foi programado a substituição dos contatos de força de um reostato de partida de um motor de 1500KW.

Procedida a liberação e o desligamento, o serviço foi iniciado.

Em dado momento quem efetuava o serviço sentiu um choque leve. Foi lá na subestação, conferiu, estavam todas as chaves de comando desligadas tanto no circuito principal, quanto no do acionamento do reostato e o do sistema de comando de temporização que era comum aos outros circuitos. Então pensou: deve ser alguma indução, sem muita importância. Continuou trabalhando. Em dado momento a quina de um contato de comando, energizado, espetou seu antebraço e ele levou um enorme choque, fazendo contrair sua musculatura, fechando a mão que empunhava uma ferramenta impedindo todos os outros movimentos, agarrado como dizem. A força que ele pensava que fazia para tentar se libertar, na verdade não aparecia.

Por sorte ele estava acompanhado. O colega ao lado, percebendo sua situação, empurrou seu braço para o lado, desconectando do ponto de contato com a parte energizada. Nesse momento a contração terminou e a força que ele pensava que fazia realmente apareceu e ele puxou o braço com toda a força, produzindo alguns arranhões.

Na hora o que se viu em seu braço foi apenas um inchaço. Dois dias depois a camada de tecido necrosado desprendeu-se ficando um buraco onde se via a primeira camada do músculo. Aquilo demorou muito a fechar e quando o fez, ficou uma expressiva cicatriz, que tem até hoje.

Depois do ocorrido, foi pesquisar tardiamente de onde procedia aquela tensão e descobriu que havia mais um equipamento, uma bomba de óleo, cujo comando passava por ali e que não havia sido contemplado no desligamento, mas aí já era muito tarde.

Analisando o fato sobre o aspecto segurança, observa-se que havia uma condição insegura ocasionada por um desligamento que não foi feito por não ter sido percebido a tempo. Por outro lado, houve ato inseguro, pois não se pode “achar” nada. Ali, mesmo que fosse indução, o desligamento deveria ser feito e/ou os aterramentos (vários pontos naquele caso) deveriam ter sido providenciados e na impossibilidade o serviço cancelado ou reprogramado ou se fosse vital o serviço, até negociar uma parada maior para fazer a tarefa com segurança. Alem disso foi falho o planejamento da tarefa, alem da análise de risco que naquela época não era formalizada.

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