Acidente fatal por eletrocussão na cabeça

Os acidentes por eletrocussão podem ir da mais leve comoção até a contrações violentas internas com danos irreversíveis aos órgãos que geralmente evoluem rapidamente para óbito. Alguns casos, dependendo da tensão envolvida pode causar carbonização geral, com morte instantânea. Alem da tensão que chamamos potencial de toque, também são representativas as condições do corpo naquele momento, por exemplo, se está molhado com água, suor ou algum líquido que faça baixar a resistência .

Diante disso, devemos ter em mente que serviços na área de eletricidade exigem muitas coisas como: Treinamento, análise de riscos, procedimentos de segurança, planejamento de tarefas, uso de EPIs ou até EPCs apropriados e muita calma e paciência na execução dos serviços, sem correrias e evitando-se sempre trabalhar sozinho.

Como em todos os acidentes, a história a seguir mostra que houve: ato inseguro, condição insegura e a falta de cada uma das condições citadas acima, principalmente porque naquela época as questões de segurança ainda não haviam sido refinadas como hoje. Vamos a história.

Uma empresa empreiteira de serviços elétricos estava trabalhando na área industrial de uma empresa de grande porte. Um dos serviços necessários era incrementar um bandejamento que servia de leito para os cabos elétricos, que iam da área onde os equipamentos estavam instalados, via galerias até o subsolo da subestação.

Serviços desse tipo exigem muitos cuidados por causa da fumaça tóxica gerada no processo de solda elétrica, queda de fagulhas e bolhas incandescentes sobre capas isolantes de cabos, que podem gerar incêndios, perigos de choques elétricos por motivos diversos, etc.

Como condições mínimas necessárias temos: a boa iluminação, boa exaustão e uso correto dos EPIs necessários ao desenvolvimento das tarefas.

No subsolo da subestação estava uma equipe trabalhando, dois dos quais exatamente sob um painel cuja alimentação era 380Volts.

Depois de ter feito as bandejas mais abaixo, era a vez de fazer as mais acima, uma de cada vez. Assim uma inferior poderia ser usada como degrau para pisar e alcançar a parte mais alta.

Em dado momento o soldador tentou subir, mas sua cabeça encostou na parte de cima onde havia uma pequena abertura, que não cabia sua cabeça guarnecida pelo capacete. Aí então ele cometeu o último ato inseguro de sua vida: Tirou o capacete que ele pensava que estava “atrapalhando” , subiu um degrau e enfiou a cabeça pela abertura adentro. Esse foi o exato momento do sinistro. Sua cabeça encostou nos pólos de ligação da terminação dos cabos ao barramento energizado e ocorreu a eletrocussão na cabeça.

Quando o companheiro percebeu ele estava se contorcendo todo pela corrente que circulava por seu corpo, suas mãos contraíram dificultando a saída da posição, como se estivesse “agarrado”, até que finalmente o peso do seu corpo fez com que ele caísse. O companheiro ao lado entrou em pânico e não sabia exatamente o que fazer, gritava chamando por socorro até que os que estavam um pouco mais distantes chegaram e começara a providenciar tudo.

Tiram o acidentado do subsolo e levaram para o piso da subestação onde havia um aparelho de respiração artificial. Apesar do pessoal ter sido treinado na semana anterior, na aflição do momento ninguém soube usar corretamente. Também não adiantaria nada, pois com as violentas contrações internas sofridas, os órgão tinham sido irremediavelmente afetados e o acidentado expulsava sangue pela boca e narinas e o caso evoluiu para óbito antes que fosse colocado na ambulância. Aquilo foi horrível. Ninguém mais conseguiu trabalhar naquele dia. O trauma psicológico é tão grande que muitos dias após as pessoas ainda se ressentem com aquilo e é realmente muito difícil produzir um trabalho de qualidade nessas condições.

No local exato, por muito tempo ainda havia as marcas, com fragmentos do couro cabeludo, pele e sangue o que potencializava todo aquele sentimento e causava pavor em quem tinha que passar por lá. Para minimizar esses efeitos colocaram uma tosca cruz de madeira no local, que ficou lá por muito tempo.

Analisando-se friamente o caso, alem do ato inseguro, houve também a condição insegura, pois deveria haver uma estrutura com uma tela de proteção até em baixo de modo a impedir cabalmente um possível contato. Essa providência foi tomada depois para prevenir novos casos. Faltou também a análise de risco que nortearia as medidas de controle, que na época ainda não existia formalmente e finalmente o planejamento da tarefa e o seu acompanhamento por alguém experiente e conhecedor de procedimentos de segurança.

Quanto ao aparelho de respiração artificial, mesmo quanto ao fato de não ter sido possível aplicá-lo ao caso, vemos que o curso de operação do aparelho não foi suficiente, como nenhum outro curso o é, pois mesmo tendo a parte prática, falta também o condicionamento psicológico para socorro.