Achismo também gera acidentes
Sempre quando se fala em acidente, pensamos logo em alguém machucado. Mas o acidente também pode ser patrimonial, quando um ou mais equipamentos sofrem avarias devido a alguma ocorrência ocasionada por ato inseguro, condição insegura, falta de planejamento, improvisação, análise de risco deficiente e falha em algum procedimento de segurança.
Por aqui temos aquela famosa cultura do “achismo”, ou seja as pessoas julgam que sabem de antemão algo a respeito de alguma coisa envolvida na segurança.
Mas nessa matéria, não cabe essa coisa de eu acho. Tudo deve ser devidamente comprovado por testes específicos que devem ser incluídos nos procedimentos e instruções de trabalho.
A história a seguir mostra uma situação dessas.
Elétrica, os equipamentos estão todos rodando invertidos!
Esse era um comunicado, retransmissão da sala de controle, do operador de uma determinada área.
Fato curioso, pensou o eletricista, cuja primeira reação foi comparecer a área correspondente e constatar pessoalmente a ocorrência.
Inverter o sentido de rotação para motores trifásicos, tem um significado peculiar, indica de modo tácito que houve uma inversão de fases.
O detalhe é que no presente caso, não era um equipamento somente, mas um conjunto deles. Isso levava a dedução de que houve uma inversão na alimentação geral dos equipamentos daquela área.
A atitude seguinte foi solicitar o desligamento imediato e começar a pesquisar os danos causados, pois alguns tipos de equipamentos não admitem inversão, sob pena de danos irreparáveis em sua estrutura, prejuízos e até acidentes. Realmente houve danos em alguns, não tão graves, exceto um que teve que ficar parado vários dias, para a substituição de peças quebradas.
Foram então anotados todos os equipamentos que rodaram invertidos e a seguir visto nos diagramas de circuito a procedência de sua alimentação. A conclusão era óbvia e coerente: eram todos alimentados pelo mesmo transformador, que logo foi identificado.
Agora estava definida a localização do problema e sua causa. Restava descobrir como ocorreu, onde estava a inversão, quando foi feita e por quem.
No livro de relatório havia um registro que uma equipe havia retirado o transformador para a manutenção na oficina e um outro o havia substituído, pois havia um transformador reserva para várias aplicações de tensão e potência semelhante..
Tudo isso foi levantado e corrigido.
O que provavelmente ocorreu é que de algum modo houve uma inversão na ordem das fases, não sendo pertinente aqui determinar como.
Assim se a sequência estiver invertida, realmente ocorre o problema de inversão do sentido de rotação dos motores.
O que provavelmente gerou a ocorrência é que na pressa de entregar para a produção um equipamento imprescindível como esse, um procedimento foi esquecido, ou talvez achassem que os transformadores fossem exatamente iguais em todos os aspectos, por ser o reserva indicado para ele e por isso desnecessário o teste.
Refiro-me ao faseamento para garantir a exata correspondência de cada barra (R,S,T) que se conecta a outra em paralelo, alimentada por outro transformador, via disjuntor de acoplamento.
Esse faseamento entre dois barramentos é um teste simples que consiste em medir tensão entre as supostas fases de mesmo nome, isso é: de R para R, de S para S e de T para T, devendo encontrar tensão zero caso o faseamento esteja correto.
O prejuízo foi significativo, mas a lição ficou.