Medroso Azarado

Essa história não é muito elétrica, mas aconteceu com um eletricista num ambiente afim.

Um eletricista ia trabalhar na sua escala de 16h até a meia noite. Antes, foi cumprir uma obrigação social.

Passou num velório de uma conhecida senhora, mãe de um amigo seu. Saiu dali, foi direto para o trabalho.

Cumpriu sua jornada. Quando deu meia noite, o pessoal que ia trabalhar o próximo turno já havia chegado e ele estava liberado para sair. Mas havia um contratempo: Chovia torrencialmente e seu carro estava longe, cerca de 400 metros de distância. Aí ele teve a funesta idéia: caminhar pelas galerias de cabos até a subestação que ficava mais próxima do estacionamento interno, cerca de 30 metros.

Afinal essas eram iluminadas e apesar do calor umidade e ruído,ainda era o melhor caminho.

As galerias de cabos eram túneis bem longos, largos e com boa altura, suficiente para se passar comodamente. Em suas laterais, várias bandejas sobrepostas a intervalos regulares, serviam de leito para os cabos de força e controle que interligavam subestações, sala de controle e equipamentos nas diversas áreas operacionais.

Eram tantas que formavam um labirinto, que alguém que não estivesse acostumado se perderia facilmente.

Até porque os segmentos de galerias que iam atender os equipamentos nas áreas operacionais, terminavam subitamente e a partir dali os cabos seguiam em envelopes, espécie de tubos reunidos em grupos e envolvidas num bloco de concreto armado.

Era então semelhante a um beco sem saída. Mas isso o colega tirava de letra, pois já havia trabalhado por ali algumas vezes.

Feliz com sua esperteza não pensou duas vezes. Desceu as escadarias até o subsolo da subestação e entrou pela primeira galeria que encontrou, traçando seu rumo mentalmente. O caminho por ali era bem mais longo.

Antes de chegar ao trecho que levava a subestação próxima ao estacionamento, tinha que dar muitas voltas: Retroceder uns 200 metros até o entroncamento da galeria que ia a sala de controle, mudar de direção e caminhar mais uns 200 metros chegando ao subsolo de outra subestação e de la mudar novamente de direção e caminhar mais uns 400 metros até a subestação de destino.

Bem, acho que ele não fez essa conta, senão provavelmente teria esperado a chuva passar ou pelo menos diminuir ou esperar algum carro de serviço interno chegar e pedir carona até lá.

Sem mais delongas se pôs a caminho. Quando já estava no início da ultima galeria, aconteceu o imprevisto,

Faltou luz e ele não tinha uma mísera lanterna no bolso. Não seria tão inesperado assim, afinal faltar luz em época de temporal é bastante comum. Mas nosso senso de prevenção nem sempre funciona bem.

A primeira reação é aquele susto, seguido de um xingamento e daquele sentimento de impotência diante da situação. Com aquela escuridão não seria possível caminhar, nem tateando, pois não seria seguro. O sujeito pode tropeçar em alguma coisa, cair numa depressão, bater com a cabeça em algum lugar ou se perder. Assim não restava outra alternativa a não ser esperar até que a luz voltasse, pois mesmo se fosse um apagão geral, o gerador de emergência entraria em funcionamento e parte da iluminação retornaria.

Seguido ao susto e ao chingamento e tal, vem aquele medo e até um sentimento claustrofóbico que tem que ser muito bem controlado para não chegar ao pânico, que fatalmente leva a irracionalidade, o que geralmente é desastroso.

Para complicar a situação do sujeito ele involuntariamente lembrava a todo o momento do velório e parecia sempre ver a defunta a sua frente.

Aquilo aprecia um pesadelo daqueles bem cavernosos.

Aquilo demorou vários minutos que pareceram uma eternidade.

Esse deve ter ficado com trauma de galerias e provavelmente nunca mais passará por lá sozinho ainda mais sem lanterna.

Roberto Vasco ( robertovasco@hotmail.com )

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