Deu pânico no sistema !

O telefone toca e…

- Ô meu, deu pânico no sistema.

- Que estranho, sistemas não entram em pânico, só as pessoas. Disse o gozador do outro lado da linha.

Afinal não podia perder essa chance. Pela voz sabia quem era seu interlocutor.

-É isso aí meu. O pessoal aqui está realmente em pânico por causa de uma pane no sistema. Alguém fez uma operação errada aqui e apagou tudo.

- Ah, agora melhorou, Mas e eu com isso.

- Você não entende! O pessoal da auditoria vem amanhã cedo pra cá e os arquivos “zeraram”. Ah, sim, eu compreendo, mas e daí?

A essa altura ele já percebera o que tinha acontecido mas se fez de bobo.

- Ô meu, você ainda tem aquele negócio aí? Perguntou de forma quase enigmática.

- Ih, cara! Aquele negócio que você me deu eu rasguei, disse maldosamente.

- Você rasgou? Santo Deus estamos perdidos. Eu sabia, o azar quando vem é completo, você era a última salvação. O que eu faço agora?

- Mas cara. Que negócio é esse que você tanto fala, que eu ainda não sei. Disse se fazendo de bobo outra vez.

Aí o sujeito explodiu:

- Como não sabe, você acaba de dizer que rasgou. Aí o gozador deu aquela risadinha sem vergonha e ele logo percebeu que era pura sacanagem dele.

- Pô bicho estou falando de assunto sério e você vem me gozando…

- Eu não, quem está me gozando é você, que liga sem se identificar e vem falando daquele negócio e tudo mais, eu achei que fosse trote. Desconversou.

- Pois é, aqui é o José do setor da controle se sistemas(nomes fictícios).

- Estamos precisando com a máxima urgência daquela pilha de papéis que te devolvi ontem, para redigitar tudo, se você ainda não jogou fora. O pessoal vai passar a noite aqui fazendo isso por causa dessa bendita auditoria da qualidade que não pode ser adiada, afinal os auditores são externos e vieram aqui só pra isso.

- Mas não foi você mesmo que recomendou que déssemos fim nesse material pois não poderiam nem desconfiar que houvesse duplicidade de informações? Tripudiou.

- Mas você levou a sério? Dessa vez foi o outro que entrou no clima da gozação para descontrair e aliviar a sua tensão.

- Eu não levei nada, mas quem vai levar é você se vier aqui.

- Porque, você ainda tem os papéis, falou também fingindo de bobo.

- Os papéis ainda estão aqui, pode vir buscar.

Foi como tirar um peso enorme das costas.

Deixando de lado aquele papo de pião a história foi a seguinte:

A empresa tinha implantado o sistema de qualidade total, seguindo as normas ISSO.9000. O sistema de qualidade era sempre auditado em vários níveis, tendo auditorias internas locais, interdepartamentais internas, regionais, que serviam de treinamento e filtragem para garantir o sucesso nas externas, que eram feitas por empresas certificadoras, com validade internacional.

Muitas exigências tinham que ser atendidas para obter e manter o certificado.

Inicialmente era feito tudo com formulários, preenchidos a mão e depois digitados, mas ainda fora do sistema informatizado. Quando este ficou pronto, era aquela maravilha. Tudo era consultado no sistema, os dados eram mais facilmente cruzados, os documentos necessários vinham todos na tela mediante comandos. Não se admitia mais folhas de papel com duplicidade de informações. Os documentos não oficiais, só para simples conferencia eram obrigados a terem o carimbo “Cópia não controlada”.

Assim, uma vez digitados, os papeis deveriam se destruídos. Até que o sistema estivesse totalmente informatizado e tudo entrasse direto sem papéis.

Quando aquele pacote de papéis correspondente ao histórico mais antigo finalmente foi inserido no sistema, os digitadores devolveram e logo veio a recomendação para que fossem destruídos.

Por sorte, como a devolução não fora formalizada com recibo, achei que deveria guardar por mais algum tempo, bem escondida, para não haver problema. Aí, falei com o rapaz que gerava aquela papelada:

- Arranja um lugar bem oculto, no sub-solo, no forro, sei lá, e coloca essa tralha toda lá por algum tempo.

Foi a salvação. Pois não demorou muito e vieram desesperados tentar achar aquele material que recomendaram destruir.

Roberto Vasco ( robertovasco@hotmail.com )

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