Histórias da Eletricidade – 3

CHAMEM A SEGURANÇA: A MÁQUINA NÃO ESTÁ DESENERGIZADA

As histórias da eletricidade que conto aqui sempre são verídicas ou possuem um fundo verdadeiro, pois sofrem algumas adaptações, como omissão de nomes de pessoas e empresas, locais e épocas de acontecimento, para a preservação destes.

Por outro lado, são sempre focadas em vários aspectos como segurança, organização no trabalho, falhas de comunicação ou de planejamento, métodos de pesquisas de defeitos e implementação de soluções, etc.

A história de hoje é focada em segurança, tendo inclusive apresentada num seminário de segurança de manutenção há vários anos, possivelmente vinte, se não me falha a memória.

Começa com a solicitação de desligamento de todo o sistema elétrico de uma grande máquina de estocagem, que na verdade possui uma subestação, de onde parte alimentação para vários equipamentos, alguns alimentados com 4160 Volts, outros 440 Volts, fora as tomadas de serviço de 440 e a iluminação e tomadas de 220 volts para equipamentos portáteis.

O sistema elétrico é descrito sucintamente a seguir e pode ser acompanhado no desenho aqui apresentado, um diagrama unifilar simplificado (cada linha representa 3, visto que o sistema é trifásico):

Numa subestação, um barramento (1) com tensão de 4160 volts, chave seccionadora (2) e fusíveis (3). Saindo da subestação, um lance de cabos 3x70mm² até uma caixa e depois dela um cabo trifásico extra-flexível, de mesma bitola (4), que termina num sistema enrolador de cabos motorizado, de acionamento automático.

Na saída deste, um sistema anéis/escovas (5) faz a interconexão das partes fixa/móveis.

Como a máquina possui a parte superior giratória e a subestação desta é na parte superior, outro sistema de anéis/escovas está presente (um jogo de 4 anéis de 4,5m de diâmetro e respectivas escovas (6).

Chegando a subestação, uma chave seccionadora (7) seguida dos fusíveis (8) e então o barramento principal da máquina (9).

A partir desse , são alimentados alguns equipamentos em 4160 volts e um transformador de 175KVA de 4160 para 440 volts (12) que por sua vez alimenta um barramento de força de 440 volts onde outros equipamentos são alimentados.

Os itens (10) e (11) são respectivamente chave seccionadora e fusíveis.

Alem dos motores este barramento alimenta também tomadas de serviço de 440 volts, transformadores de comando e transformador de 440/220volts (17) para o serviço de iluminação e tomadas para equipamentos portáteis.

O serviço de manutenção geral, elétrica, mecânica, etc, exigia o desligamento completo de toda a alimentação do sistema.

Assim que recebeu os cartões de segurança devidamente preenchidos o eletricista foi para a subestação, desligou a chave seccionadora (2), retirou os fusíveis (3) e colocou a malha de aterramento nos cabos de saída. Assinou o cartão e deu o canhoto para o solicitante.

Até aí tudo bem. Todos os procedimentos foram cumpridos corretamente.

Mais tarde, havendo a necessidade de ligar equipamentos portáteis para utilizar na manutenção da máquina e esta estando desligada, houve um chamado para “a elétrica” disponibilizar alimentação 220 volts no local.

O eletricista que compareceu ao local, poderia ter orientado a cada equipe, que buscasse na ferramentaria uma extensão e ligasse numa tomada externa, existente no piso, sob a máquina em local relativamente próximo.

Mas na intenção de ajudar, teve a “brilhante idéia”: alimentar as tomadas de serviço em 220 volts através da tomada externa, utilizando-se de um pequeno pedaço de fio que alguém tinha no local. Isso fez um enorme sucesso, pois com uma medida simples, todas as tomadas de serviço ficaram alimentadas e a iluminação toda disponível pra quem precisasse.

Isso teria sido ótimo se outras equipes da elétrica não estivessem trabalhando, cada qual em sua área de atuação, conforme se vê a seguir:

Alguns eletricistas de uma equipe iriam fazer a revisão nas conexões do transformador principal, outros do barramento, chaves seccionadoras, etc.

Como a máquina estava totalmente desenergizada, acharam dispensável colocar as malhas de aterramento, criando as zonas protegidas nos locais a serem manuseados.

Do mesmo modo as chaves seccionadoras, manuais, não precisavam ser abertas.

A chave do barramento do secundário do trafo ficava automaticamente desligada pelo comando de subtenção e precisava ser alimentada para aceitar o rearme manual.

Enfim estava tudo certo e não havia tempo a perder, pois a parada para a manutenção tem um tempo previamente pactuado com a produção, findo o qual deve ser devolvida com tudo funcionando.

O serviço começou animado e cada etapa vinha sendo cumprida dentro da meta traçada.

Em dado momento, pra sorte dos eletricistas, uma ferramenta escapuliu e projetou-se sobre um segmento do barramento e saiu uma grande faísca quase matando a turma de susto.

A isso se seguiu um sentimento de revolta com a situação e comunicado aos que estavam no transformador, que por sorte tinham saído de lá há cinco minutos.

“Ai meu Deus, a máquina não está desenergizada. Chamem a segurança”.

A confusão estava formada.

Chamaram o eletricista que tinha feito o desligamento e este confirmou que havia desligado e comprovou o desligamento, levando todos os reclamantes na subestação e mostrando a chave seccionadora aberta, os fusíveis retirados e a malha de aterramento colocada, isentando-se da responsabilidade pela ocorrência.

Pediu reforço e seguiram para a máquina em questão.

Chegando na subestação desta, mediram a tensão e confirmaram sua existência.

Como se poderia ter tensão se foi confirmado que a máquina estava desenergizada na subestação.

Só cabia uma explicação: ela estava sendo alimentada em algum ponto externo do percurso da subestação até a máquina.

A questão era descobrir onde e como.

Começaram a procurar fazendo uma inspeção detalhada em toda a periferia da máquina.

Quase por acaso alguém tropeçou num pedaço de fio paralelo, indo de uma tomada externa até um tomada da estrutura inferior da máquina, próxima do solo pouco mais de um metro.

A princípio o eletricista que viu estranhou: Ligação de tomada para tomada?!

Aí caiu a ficha. Essa era provavelmente a causa do problema. Removeram a ligação, mediram novamente a tensão e esta tinha sumido, comprovando sua origem.

Era quase inacreditável e novidade pois nunca havia acontecido coisa semelhante.

Para compreender melhor a ocorrência, pegaram os diagramas para analisar e finalmente ficou esclarecido:

Quando se ligou a tomada externa (23) à tomada da máquina(21), através do fio paralelo(22) , energizou-se o transformador de iluminação com 220 volts em duas das fases.

Este por sua vez energizou com a tensão de quase 440 volts o secundário do trafo principal, porque a alimentação do trafo de iluminação é independente da chave do secundário do trafo principal.

Assim no primário do transformador principal apareceu a tensão alta.

Era incrível. Nunca ninguém havia pensado nesses termos.

Bem, a partir daí é fácil imaginar a encrenca: registros de quase acidente, análises, medidas de controle para o futuro, alteração nos padrões de segurança vigentes para evitar novas ocorrências do gênero e reciclar a segurança da turma.

Acabaram identificando o autor, mas como não houve dolo, nem machucou ninguém , não o puniram severamente.

No desenho abaixo está representado o diagrama unifilar simplificado conforme já mencionado onde as linhas em vermelho, no sentido da seta em baixo representa o caminho inverso da alimentação externa até o barramento.


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