Histórias da Eletricidade – 2
Ai meu Deus, laçamos o poste!
Essa história também é verídica.
No pátio de estocagem haviam máquinas cuja alimentação era feita em 4,16KV (4160 volts), via cabos trifásicos, extra-flexíveis dado a sua condição característica de trabalho, com bitolas entre 50 e 70mm².
Esses cabos tinham durabilidade limitada e periodicamente tinham que ser substituídos ou reparados, se possível, quando havia algum acidente.
Esse, como todos os outros serviços elétricos tinham que ser programados com antecedência e executados dentro de intervalos de tempo previamente pactuados com a produção, com previsão de entrega definidos.
Normalmente um serviço de emenda de cabos durava aproximadamente 8 horas, uma vez que cabos para tensões mais elevadas possuem uma constituição especial e cada camada tem que ser recomposta de modo apropriado, com muita técnica e muito cuidado, pois qualquer errinho é fatal, porque ao energizar ocorre um incêndio no local da emenda e aí tem que começar tudo do zero e cortar um bom pedaço de cada lado que fica então perdido.
Se o comprimento do cabo estiver muito a conta, aí a coisa se complica.
Alem disso não adianta colocar muita gente, porque senão um atrapalha o outro.
È no máximo dois caras trabalhando direto, mais um ajudando e talvez outro dando o apoio logístico.
Isso para cada ponto de emenda ou terminação.
- Ver na figura abaixo, uma fatia cortada do cabo só pra você espiar por dentro como ele é.

O serviço começou com um tempo já apertado. Antes de se iniciar propriamente o trabalho, existem várias etapas, como requisição, transporte até o local, desenrolar e estender no solo, processo também útil para a acomodação e suavização dos esforços de torção contraídos durante o processo fabril de enrolar sobre o carretel.
Outro detalhe é que esse tipo de cabo é pesado, alem de sua capa externa de borracha servir de freio ao esforço de arraste pelo chão, sendo então necessário vários homens para essa fase de desenrolar e puxar para estender.
Essa puxada também não se faz de uma só vez, pelas razões exposta acima.
Primeiro vem um homem, segura em uma parte e leva até uma distância suportável, aí outro vem mais atrás e faz a mesma coisa e assim sucessivamente até que se forma uma fila de homens puxando o cabo até que chegue ao limite suportável do ultimo da fila.
Nesse ponto, colocam o cabo no solo, vão lá próximo do carretel e começam a puxada outra vez da mesma forma já descrita e assim procedem quantas vezes sejam necessárias para desenrolar todo o cabo do carretel, que possui a medida do percurso total a ser coberto, pegar a ponta do último lance que saiu do carretel e também a do outro lado e então começar a preparar.
É claro que no solo fica uma bagunça de cabos que tem que ser arrumado depois, deixando o mais reto possível e ter bastante atenção para não haver erros. Ver desenho no final do texto.
Alem disso no decorrer do percurso havia alguns obstáculos a serem contornados, como postes, etc.
Como o tempo corria velozmente, deixaram a arrumação do cabo pra depois e começaram firmemente o processo de emenda de um lado e terminação do outro, que também tem aquele ritual: Processo descrito abaixo, só pra terem idéia da trabalheira:
Cortar, decapar as partes a serem trabalhadas nas medidas tecnicamente corretas, fazer as “pontas de lápis”(afinamento cônico nas pontas a receberem os terminais ou luvas de emenda), limpar a camada semicondutora com lixas e solvente, prensar os terminais, recompor cada uma das camadas com o material apropriado, ( após aplicar a primeira camada semicondutora sobre as luvas de emenda e as partes expostas dos condutores, é confeccionado o cone de alívio com fita de borracha, que depois se estende até cobrir com algumas camadas o isolamento primário do condutor.
Acima dessa camada é colocada uma camada de fita semicondutora e sobre essa a blindagem que pode ser de fita metálica ou tecido metálico, tipo rede.
Só então são agrupadas as três veias e finalmente cobertas com a capa externa, também de fitas de borracha auto-fusão).
Feito tudo isso, foi medida a resistência de isolamento. Que ótimo, estava OK!
O serviço finalmente ficou pronto e era só arrumar o cabo no solo, o mais retinho que se conseguisse e finalmente energizar e colocar em serviço.
Quando se tentou puxar o cabo e eliminar as volta que fazia no chão veio o sentimento de surpresa, frustração, desânimo, perplexidade e sei lá mais o que, que se seguiu a exclamação de um deles: “Ai meu Deus, laçamos o poste”.
Seguido ao susto veio a preocupação: O tempo há muito já estava vencido.
Como explicar para a chefia? Como explicar para a produção que precisavam de mais um longo tempo para consertar “aquela diarréia”?, qual medida seria mais viável? Nessas horas sempre aparecem muitas idéias cada uma mais estapafúrdia do que a outra. Arrancar o poste, nem pensar.
Esse poste era na verdade uma torre de iluminação, três vezes mais alta que um poste comum de rua e base na mesma proporção, fincada numa sapata de concreto armado. Passar o cabo por cima do poste nem se podia cogitar, nem dava.
Não sobravam muitas alternativas, alem de cortar o cabo e reiniciar a emenda da estaca zero.
Por sorte alguém conseguiu lembrar apesar daquela confusão que havia uma tábua de salvação, que apesar de não ser tão rápida era melhor do que cortar a emenda e refazer.
A idéia, que acabou sendo adotada, era desligar a terminação na caixa de anéis e com cuidado arrumar e juntar as pontas, protegendo para não estragar, da melhor forma possível, rezar para que a terminação não tivesse “engordado muito” e puxar pelo segmento de tubulação, livrando a ponta, juntar aquele monte de homem outra vez, o que já era difícil fora de hora, retroceder todo o lance de cabo até o poste, dando a volta e finalmente desfazendo o laço.
Depois disso, levá-lo de volta até onde o tinham tirado, passar pela tubulação e reconecta-lo aos anéis.
Como se vê era a solução mais viável, no entanto não era tão mole assim.
Depois vieram as análises, levantamento de causas, justificativas, muita conversaria e aquele rolo todo, até esfriar e passar para a história.
- Carretel suspenso em um cavalete e cabo no solo, depois do arraste e antes da arrumação:

Roberto Vasco.